Sergio Valência

A Dama da noite
Ao ver-te passar
Senti perfume
E enlouquecido de ciúme
Aos teus pés, fui me prostrar
Só pra me fazer presente
Tão perto, à tua frente
E assim
Umedeci-me do bálsamo alcalino
Por entre o teu mantéu
E recordei
O meu destino
Amargo como fel
Um vulto ali, me aprisionou
Um beijo em minha boca
E percebi que poderia amar
E o teu corpo
Ainda que em mil anos
Desejar
Despiu-se à minha frente
À luz da relva, bailando inconsequente
Traiu minha inocência
Tratou meu coração tal qual menino
E, num ato frio e desatino
Pedi tua clemência
Não permiti sofreguidão
E atordoado
Temi a maldição a me envolver
Pois dos mistérios do nosso passado
Sou dos dois, o único
A não perceber
Que o encanto é meramente fantasia
Talvez da minha própria hipocrisia
De ainda, obstinado
Novamente desejar
Um breve instante
Eterno amor, eterno olhar.
Sergio Valência

Carlos Drummond de Andrade

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo, vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Manuel Bandeira

Teresa

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o
resto do corpo
Os olhos nasceram e fizeram dez anos esperando
que o resto do corpo nascesse

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a
face das águas.

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Não acredita não, Teresa...
“Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você...
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde...
Se ele chorar, se ajoelhar ...Se ele se rasgar todo...
Não acredita Teresa... É lágrima de cinema. É tapeação. Mentira.
Cai fora”
- Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

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