Vinícius de Moraes

Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo
de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa
como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque
em meu ser está tudo terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados.

Carlos Drummond de Andrade

A dança e a alma
A dança?
Não é movimento súbito gesto musical
É concentração,num momento, da humana graça natural
No solo não,no éter pairamos, nele amaríamos ficar.

A dança-não vento nos ramos seiva,força,perene estar
um estar entre céu e chão, novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão libertar-se por todo lado...

Onde a alma possa descrever suas mais divinas parábolas
sem fugir a forma do ser por sobre o mistério das fábulas

Carlos Drummond de Andrade

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram que havia uma guerra
e era necessário trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras, humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

Cecília Meireles

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta
nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos severos conosco,
pois o resto não nos pertence.

JG de Araujo Jorge

" Coração Solitário "


A noite esta fechada na janela aberta.
Uma rua perdeu-se na sombra lá embaixo.
Não existe esta rua - é um beco surrealista
que fugiu de algum quadro louco que não vi.

Ouço meu coração ardente e solitário
com sua música estranha de piano bêbado.
No espelho, meu olhar: duas chamas de estrelas.
Não sei se é o vento, sei que há música na noite.

Há música no quarto, nas cortinas, música
nos meus cabelos despenteados, nos meus dedos,
no meu rosto, entra e sai pela janela.

Música indefinida a encher a solidão:
- estou no ventre da noite a mexer com os meus sonhos,
ouço o meu coração ardente e solitário.



Sirlei L. Passolongo

Um dia você irá sentir saudades,

e vai doer tanto em você que irá me procurar;
e não vai mais me encontrar...
então sentirá exatamente
isso que estou sentindo agora,
uma dor que queima,
que esfacela o peito...
Uma dor que amarga feito fel
que me faz desejar morrer
e aí você irá entender o quanto eu te amava,

entenderá que todas as vezes que te chamei
era meu coração que gritava,
que todos as vezes que chorei
era minha alma que sangrava
e quando esse dia chegar,
estarei tão distante de você
que apenas terá lembranças do meu rosto,
mas serão lembranças tão fortes
que me verá pelos cantos da casa,
em outros rostos pela rua,
assim como vejo você.

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