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Cecília Meirelles

Pássaro


Aquilo que ontem cantava já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede, e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo, livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

Em Os melhores poemas de Cecília Meirelles

Cecília Meirelles

CANÇÃO DO
AMOR-PERFEITO

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve, desunido
para sempre como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade, seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio, como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco, vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo com suas conquistas áridas.

Esperarei que te seque, não na terra,
Amor-Perfeito, num tempo depois das almas.