Marcial Salaverry

Impossível esquecer-te,
se estou sempre a lembrar-te...

Esquecer nossos beijos,
aquelas carícias trocadas,
aquelas palavras apaixonadas...

Esquecer-te... como?
Se chegastes ao meu coração,
dando-me aquela quente emoção...
emoção de saber que me desejas,
que em sonhos me beijas...

saber que me amas,
que minha presença reclamas...
Nem sempre temos
aquilo que queremos...

Amar à distância... esta é a sina
que vida nos destina.
Esquecer-te? Jamais...

J. G. de Araújo Jorge

O Lado Bom!

Quero ser uma ilha,
um pouco de paisagem,
uma janela aberta,
uma montanha ao longe,
um aceno de mar.

Quando precisares de sonho,
de um canto de beleza,
de um pouco de silêncio,
ou simplesmente
de sol... e de ar...

Quero ser o lado bom
em que pensas,
isto que intimamente
a gente deseja
mas nem sempre diz
- quero ser, naquela hora,
o que sentes falta
para seres feliz...

Que quando pensares
em fugir de todos
ou de ti mesma, enfim,
penses em mim...



Sílvia Schmidt

CHEGARÁS


Tu não podes amar quem nunca viste.
Ouves de longe a voz do coração
Que chama o teu, tremendo de emoção,
Quando te encontras mais vazio e triste?

Tu não podes amar quem nunca ouviste
Ao pé do ouvido a repetir refrão
De amor que invade como um vil ladrão
Todo segredo que num'alma existe.

É meu desejo que te chama agora,
E espero, sim, que venhas sem demora
Para acolher meu coração sofrido.

Vais encontrar-me trêmula esperando
Por teu abraço cálido entregando
O que só em sonhos inda foi vivido.

J. G. de Araújo Jorge

A Companhia


Do amor não quero mais a aventura,
quero a companhia.

Já não procuro ilusões e surpresas
se todos os caminhos foram percorridos,
se oblíquo sol da tarde alonga a minha sombra
presa ainda a meus pés, a fugir, para onde?

Quero a compreensão, a tranqüila ternura,
a presença melhor depois que amada,
a que sabe ser luz clareando a estrada,
ser aragem na fronte ardente a inquieta;

- alta maré para encobrir escolhos,
ser água para a sede que atormenta,
sombra, quando a luz doer nos olhos.

A que inteira se dá sem pedir nada
só pela humilde alegria de se dar!

A que é pousada para o amor que vinha
já cansado de tudo e que não tinha
onde ficar.

A que tem mãos felinas, mãos que arranham
infladas de amor,
sem a gente sentir,
mãos que enlaçam, depois, cantam ternuras,
e que emberçam as nossas amarguras
e nos fazem dormir...

A que é mulher, - mar alto, porto e abrigo -
a que fica à nossa espera,
a que se pode voltar a qualquer hora...
A que sabe perdoar nossos pecados
nossos marinheiros desejos desgarrados
e não nos mandam embora...

Do amor não quero mais a aventura
quero a companhia:
a que depois do beijo
me dará a mão,
a que será minha - à noite se entregará
sem pejo -
e impoluída e pura,
continuará comigo, com a mesma ternura
no coração...

Quero a doce, a permanente companhia ...

A que depois da noite
é o meu dia,
e, com o braço em meu braço
há de acertar seu passo
na mesma direção...

do livro Os mais belos sonetos que o amor inspirou IV