Pablo Neruda

Soneto LXVI

Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te quero,
te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
e a medida de meu amor viageiro
é não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor a sangue e fogo.

Cem sonetos de amor- Pablo Neruda/ pág. 77.

Clarice Pacheco

Uma cidade diferente

Era uma cidade
meio diferente,
ficava escuro ou claro
assim, de repente.

As casas andavam pelas ruas
enquanto que as pessoas não,
as casas trabalhavam
e as pessoas viviam plantadas no chão.

As frutas eram verdes,
as árvores eram coloridas,
das frutas estragadas nasciam
as árvores mais bonitas.

O Sol aparecia à noite
iluminando as ruas,
de dia o que iluminava
era a luz da Lua.

Os carros passavam voando
sempre muito apressados,
porque se fossem devagar
é que eram multados.

Os aviões navegavam
atravessando os sete mares,
os navios sobrevoavam
cortando à tona os ares.
Em Caderno de poesias-Clarice Pacheco. pág. 33.

Cecília Meirelles

CANÇÃO DO
AMOR-PERFEITO

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve, desunido
para sempre como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade, seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio, como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco, vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo com suas conquistas áridas.

Esperarei que te seque, não na terra,
Amor-Perfeito, num tempo depois das almas.


Carlos Drummond de Andrade

Oficina irritada

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.